Escravas da vaidade

Quem normalmente procura por esse filme, sabe do que se trata. Não apenas pelas resenhas todas iguais, mas pelo fato de ser de arte, chinês, com críticas políticas e culturais; tudo fora dos requisitos dos amantes do cinema pop asiático. Por este fator, resumirei a obra de uma forma rápida antes de fazer os comentários.

Uma atriz aposentada por estar “velha” para as telas recorre a uma feiticeira para se alimentar de um pastelzinho chinês com propriedades “mágicas” de rejuvenescimento devido a um ingrediente secreto.

Pois é, a partir daqui vai ter uma spoilada doida.

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Não é mistério do que se trata o segredo, no início do filme já nos é revelado. Em um ritual de três pratos, Sra Li se submete a comer fetos humanos para ficar mais jovem. Obviamente, ela tem tanta aflição do que se trata que chega a sair correndo ao ver a doutora segurando o “produto”. A evolução desta frieza, forma de compensação pelo louco desejo de voltar a ser jovem, é tão homeopática que nem percebemos os julgamentos maniqueístas desaparecerem, chegando ao ápice do filme um discurso favorável ao canibalismo(diga-se de passagem, genial) da própria Tia Mei(feiticeira ex-médica) e defendendo também uma falta de vida no feto(não estariam matando ninguém, apenas “aproveitando” os restos do que teve que ser feito – procure por “política do filho único” no google). Isto, além de incluir relatos na história chinesa acerca do tema, também revela dados chocantes da quantidade de aborto que é feito na China, que é o que mantém – e pode manter – sua franquia de bolinhos em dia.

O que chama atenção no filme é exatamente essa guerra ideológica em torno da busca do maior prazer. Ela chora ao olhar para o que vai fazer(comer feto), mas chora mais ainda quando assiste as novelas em que era protagonista quando mais nova e tivera de desistir exatamente por estar envelhecendo. “A beleza vem de dentro”, diz Tia Mei, “Mulheres como você só servem para ser a esposa, a ex-esposa e a ex da ex. Você é rica, mas eu sou livre”, em outras palavras “Come logo essa porra, isto não é uma metáfora. Obrigada, de nada.”. A forma que retratam a vida, o lado selvagem do ser humano a pagar qualquer preço por aquilo que quer e mostrar esse imenso desejo pela eternidade com frases “a idade é só um número”; a alimentação do Sr Li a base de ovo semichoco(iguaria tailandesa que acredita também no rejuvenescimento) e a abdicação total da Sra Li quanto à construção do seu ego.

A melhor cena do filme, na minha opinião, é quando a Sra Li descobre um fato aí do marido(quê) e com raiva dele ela destrói todos seus ovos semi-chocados, daí, quando ela tá pisando aparece um passarinho vivo. Ela olha, pensa que já comeu até projeto de bebês e diz “foda-se essa merda”… Entendedores entenderão, e não, ela não come o passarinho vivo, calma xD O final do filme então, só concretiza essa essência.

Enfim, esse foi o melhor filme de horror que assisti na minha vida inteira. Por ser de arte, tem uma excelente fotografia, direção, trilha sonora, produção excelente em geral, uma história foda, dados históricos interessantíssimos, e reflexões bizarras mas que nos faz ressaltar coisas que certamente já se passaram em nossas cabeças em algum momento em nossas vidas, mas que nossa evolução moral civilizada reprimi até mesmo por falta de necessidade(ou será que não?).

Postado também no blog Queria ser cult, mas Woody Allen me dá sono.

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